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Matt Damon como Odisseu em imagem promocional de A Odisseia
Reprodução/Sony Pictures

A Odisseia marca um ponto importante na carreira de Christopher Nolan. O novo filme é o primeiro longa de ficção filmado inteiramente em película IMAX, realização de uma ambição que o diretor carrega desde antes de começar a dirigir.

Estrelado por Matt Damon como Odisseu, o filme acompanha a longa travessia do rei de Ítaca após a Guerra de Troia. Anne Hathaway interpreta Penélope, enquanto Tom Holland vive Telêmaco. Mais do que uma nova adaptação de Homero, o projeto reúne uma tecnologia que Nolan perseguiu por décadas e uma história que parece feita para ser vivida em uma sala de cinema.

O IMAX que Nolan perseguiu por anos

Em 1986, aos 16 anos, Nolan assistiu a um filme em IMAX no Museu da Ciência e Indústria de Chicago. A experiência despertou nele a vontade de um dia filmar uma história inteira naquele formato.

A resposta demorou para chegar. Antes de transformar o IMAX em uma marca de sua filmografia, Nolan testou o formato em uma única tomada de O Grande Truque. Pouco depois, em Batman: O Cavaleiro das Trevas, passou a usá-lo em sequências maiores e provou que aquela imagem podia fazer parte de uma narrativa de estúdio, não apenas funcionar como atração visual.

Com o tempo, o diretor levou esse uso mais longe. O IMAX deixou de ficar restrito a perseguições, batalhas ou paisagens grandiosas. Em Oppenheimer, por exemplo, Nolan mostrou que o formato também podia servir a rostos, silêncios e salas fechadas. Mesmo em uma história sobre ciência, política e culpa, havia uma sensação física em cada decisão tomada diante da câmera.

É por isso que A Odisseia não parece ser apenas o próximo passo técnico. Ela nasce de uma ambição antiga, mas chega depois de uma filmografia que ensinou Nolan a usar a imagem grande sem depender somente dela.

A tecnologia que permitiu filmar A Odisseia inteira em IMAX

Filmar tudo em IMAX nunca foi simples. As câmeras são grandes, exigem recargas frequentes e produzem muito ruído — algo especialmente difícil em cenas íntimas, nas quais os atores precisam ouvir uns aos outros e manter o ritmo de uma conversa.

Para A Odisseia, Nolan e o diretor de fotografia Hoyte van Hoytema trabalharam com a IMAX para encontrar soluções que permitissem usar o formato do começo ao fim. A produção foi a primeira a usar a IMAX Keighley Film Camera, nova câmera de película 70 mm mais leve e silenciosa do que os modelos anteriores. Com corpo de fibra de carbono, mecanismo redesenhado e visor LCD, ela ajudou a equipe a filmar diálogos e cenas mais íntimas sem abandonar o formato. Em alguns momentos, espelhos foram usados para que os atores mantivessem contato visual mesmo com o equipamento ocupando o espaço entre eles.

A dificuldade não ficou só dentro do estúdio. Em determinadas locações, o conjunto formado pela câmera e sua proteção acústica precisou ser transportado por helicóptero até áreas montanhosas. É o tipo de detalhe que mostra o tamanho do esforço por trás de uma decisão que, para o público, pode parecer apenas estética.

Mas Nolan não parece usar o IMAX apenas para transformar navios, tempestades e guerras antigas em imagens maiores. A intenção é colocar o espectador dentro daquela travessia. Em vez de observar Odisseu de longe, a proposta é sentir o mar, o vento e a ameaça ao redor dele como parte da experiência.

Essa diferença importa. A tecnologia não está ali para transformar Homero em um cartão-postal mitológico, mas para dar presença a um mundo que precisa parecer duro, perigoso e vivo.

Ludwig Göransson retorna após Oppenheimer

A imagem é apenas uma parte da forma como Nolan constrói seus filmes. A outra costuma estar no som.

Depois de trabalhar com o diretor em Tenet e Oppenheimer, Ludwig Göransson retorna para compor a trilha de A Odisseia. A parceria já mostrou que a música, nos filmes de Nolan, não costuma entrar apenas para acompanhar uma cena: ela ajuda a criar tensão, urgência e desconforto antes mesmo de algo acontecer.

Desta vez, Göransson partiu de uma ideia incomum. Por orientação de Nolan, ele não usou uma orquestra tradicional para construir a trilha. Em vez disso, trabalhou com 35 gongos de bronze de tamanhos diferentes, sintetizadores e uma grande lira. O instrumento de cordas ganhou uma função específica: Nolan imaginou seu som como uma extensão do arco de Odisseu.

É uma escolha que combina com o projeto. A Odisseia poderia facilmente cair em uma trilha grandiosa e previsível, feita apenas para acompanhar batalhas e criaturas mitológicas. Göransson parece buscar outra coisa: algo antigo, estranho e físico, mas que ainda soe novo para o cinema atual.

Uma adaptação como essa precisa funcionar tanto para quem conhece Homero quanto para quem nunca leu o poema. Esse talvez seja o maior desafio do filme. Não basta transformar uma história de milhares de anos em espetáculo; é preciso fazer com que ela ainda pareça urgente para quem entra na sala hoje.

Ainda será preciso esperar a estreia para entender como Nolan sustenta uma jornada tão longa. Mas há algo especial no ponto em que ele chega agora: depois de décadas tentando ampliar os limites do formato, escolheu uma história que pede mar, guerra, aventura, música e uma tela capaz de engolir o espectador.

A Odisseia estreia nos cinemas brasileiros em 16 de julho de 2026.

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